domingo, 29 de julho de 2012

Vidas em pedaços= Homens por inteiro


Cotação : 5 estrelas



Embora conhecido como um dos papas do New Journalism e de ter publicado relativamente poucos romances, sendo o mais famoso deles "A Fogueira das Vaidades", Tom Wolfe é forte candidato ao posto de maior ficcionista americano vivo.

"Um Homem por Inteiro", publicado em 1999, é um livro grandioso nâo só no tamanho (mais de 600 páginas), mas na imensidão do painel da sociedade americana da virada do século XX, retratada pelo autor. O cenário do livro é a cidade de Atlanta, onde o empresário sessentão Charles Croker está às voltas com problemas financeiros e vê sua decadência física se aproximando velozmente.

O declínio de Croker, ex craque de futebol americano, se dá em uma cidade às voltas com suposto caso de estupro envolvendo um craque negro do time de futebol da cidade e uma jovem herdeira branca, filha de um empresário amigo de Charlie. O prefeito e o advogado do jovem jogador, ambos também negros, tentam conter a tensão racial latente. Paralelamente seguimos a trajetória de Conrad, um jovem operário de um frigorífico pertencente à Croker, e que após ser demitido, vê sua vida também entrar na descendente: é preso injustamente e após fugir da prisão (em um dos episódios mais emblemáticos do livro) sua vida vai se cruzar com a de seu ex patrão. Os dois veem seu mundo se desagregando até que ironicamente, quando mais parecem ser homens em pedaços, finalmente percebem que são homens por inteiro. Esse é o mote do título dessa obra seminal de Tom Wolfe.

domingo, 8 de julho de 2012

A noite nunca tem fim



Cotação : 5 estrelas


Na orelha da edição convencional de Pornopopéia (existe uma outra de bolso), o texto sem assinatura vaticina : “ Pela sua atualidade e também pela maneira como o autor domina o texto- de ritmo nervoso, ecoando o que se diz nas ruas, e não nos departamentos de literatura- Pornopopéia é uma experiência única. E seus efeitos não são passageiros.”

O que a princípio poderia ser mera retórica marqueteira da editora é de fato a pura expressão da verdade.

Para os mais apressados, as aventuras do cineasta frustrado Zeca, relegado a produzir vídeos institucionais de salsicha, seriam apenas pornografia da categoria mais baixa possível. A descrição minuciosa de orgias com jovens liberais e prostitutas, regadas a muitas drogas, talvez deixem essa impressão. Mas Reinaldo Moraes consegue mais do que isso. O devasso Zeca é tão bem construído, suas observações despudoradas a respeito da realidade que o cerca tão contundentes, que Pornopopéia não pode deixar de ser o que efetivamente é : grande literatura, um romance símbolo de sua era.

Um outro fator interessante é a condição de cúmplice fornecida ao leitor, pois Zeca, a exemplo de personagens criados por Machado de Assis e Jorge Amado, se dirige diretamente ao leitor em meio ao relato de suas loucuras. Somos agregados à noitada sem fim do narrador.
Além de tudo isso, Reinaldo Moraes utiliza um humor matador, tão politicamente incorreto, quanto irresistível. Em vários momentos, o livro inspira sinceras gargalhadas.

Nunca um autor tão marginal, ocupou lugar tão central em nossas letras.